Segunda-Feira, 21 de Maio de 2012
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PLANETA FURLA

Ideias, artigos, projetos, inspiração, transpiração: pensando a comunicação nos tempos atuais

 

Guerrilheiros da Prosperidade

 

*Dirceu Martins Pio

 

Faz 25 anos que o Jornal da Tarde, sob inspiração e coordenação de Rui Mesquita, lançou a série de reportagens “Guerrilheiros da Prosperidade”. Era início de governo de José Sarney – 1986 – e na ante-sala do espalhafatoso Plano Cruzado. O jornal reunira o melhor de seus talentos – exceção talvez do autor deste artigo – para traçar um perfil detalhado dos micros e pequenos empreendedores, personagens emblemáticos da economia brasileira, que só conseguiam sobreviver pela tática da guerrilha.

A série alcançou uma repercussão bem acima das expectativas, o que incentivou o jornal a persistir no tema por meses a fio, acompanhando de perto, por exemplo, o eclodir do impetuoso movimento associativo da pequena empresa, liderado pelo economista catarinense Pedro Cascaes, lançado após as enchentes que devastaram boa parte do território de Santa Catarina e simultaneamente à edição do Plano Cruzado. Apontada como marco histórico da união da pequena empresa no Brasil, a série, infelizmente, circulou na fase da pré-Internet, de modo que há poucos registros dela nos arquivos eletrônicos a não ser um livro-síntese assinado por Rui Mesquita e ainda disponível em algumas livrarias.

Pedro Cascaes havia se aproximado bastante dos autores da série de modo que foi a eles que foi pedir ajuda para remover um problema seríssimo: no rol de normas e decretos que davam sustentação ao Cruzado, havia artigos e cláusulas capazes de matar um número expressivo de pequenas empresas.

Fernando Portela, um dos jornalistas envolvidos, tratou logo de ligar para a economista Maria da Conceição Tavares, uma das autoras do Cruzado. Sua resposta a Portela, que falava em nome de Pedro Cascaes, surpreendeu pela honestidade: “Eu não entendo absolutamente nada de pequena empresa”, disse a economista, sugerindo que ele procurasse outros autores do plano, que por sua vez revelaram entender pouco do assunto.

Esses 25 anos se passaram sem que houvesse melhora de qualidade nos cenários – interno e externo – em que trabalham as pequenas empresas brasileiras. As notícias que cercaram até recentemente a criação pelo governo de Dilma Roussef  do Ministério da Pequena Empresa trouxeram renovadas esperanças às associações, federações e sindicatos do segmento, de que finalmente o governo federal vai  a olhar para ele com lentes específicas e exclusivas. Em meados de abril, contudo,  começaram a surgir dúvidas de que o Ministério enfim será criado.

Esse desconhecimento da classe política – admitido até hoje exclusivamente por Maria da Conceição Tavares – está na raiz de todos os problemas que afetam os pequenos empreendimentos. Em duas décadas e meia, o setor político brasileiro, nas três instâncias da Federação, sequer aprendeu que é quase uma ignomínia tratar os pequenos com as mesmas regras e políticas com as quais são tratados os grandes e médios. Ou que, em outras palavras, os diferentes precisam ser tratados por suas diferenças.

É o que pregava Hélio Beltrão, ao propagar as ações efetivas levadas a efeito pelo seu Ministério da Desburocratização, criado – e tempos depois cancelado – no último governo militar, de João Figueiredo.

Hélio Beltrão morreu e seu discurso, com grande adequação, parece ter sido enterrado junto com seus ossos. Ele se referia a problemas que até hoje persistem:

            - É preciso acabar com as imensas dificuldades para se abrir e se fechar uma firma no Brasil.

            - Se oferecermos isenção tributária aos pequenos, a receita governamental não cairá nenhum tostão. Ao contrário, vai aumentar e muito se deslocarmos o aparato fiscal dos pequenos para os grandes.

Em recente artigo publicado no caderno de economia de o Estado, o professor da Fea-USP, Paulo Feldmann, dizia enxergar algo de errado com o universo de pequenas empresas do Brasil em razão de o segmento ser responsável pela manutenção de 53 milhões de empregos e ao mesmo tempo pela pequena participação de 20% no PIB, um dos menores índices do mundo.

 Estamos, portanto, diante de uma grave distorção. E quem desejar entendê-la melhor deve, simplesmente, observar os dois cenários com que trabalham os nossos “guerrilheiros”. No cenário externo, temos ainda insuportável carga tributária que os programas como o Simples ou o Supersimples estão longe de resolver;  uma legislação do trabalho e uma Justiça que também trata o pequeno empresário da mesma maneira que trata os médios e grandes; uma contumaz falta de crédito adequado às possibilidades e às necessidades dos pequenos.

As condições do cenário interno talvez sejam ainda piores. Hélio Beltrão já identificava há quase 30 anos que o exagerado índice de letalidade da pequena empresa no Brasil se deve  à  falta de “visão de marketing” da grande maioria dos empreendedores do segmento. O Sebrae e mesmo as  entidades a serviço da grande empresa tentam ajudar, mas a demanda  supera vastamente os recursos disponíveis.

A série Guerrilheiros da Prosperidade acendeu luzes para podermos enxergar o que é e como trabalha esse segmento. São os pequenos “guerrilheiros” os grandes responsáveis pela circulação da moeda, pela produção de bens de consumo em grande escala. Só a pequena empresa  consegue reagir com celeridade a qualquer tipo de estímulo: é capaz de criar milhares de empregos  da noite para o dia, enquanto  as grandes empresas levam até seis meses para criar apenas um. A pequena empresa não pede concordata e não vai à falência. No desespero, o pequeno empresário baixa as portas da loja,  atira a chave no mato e desaparece, ainda sem saber que vai sofrer, até à morte, a perseguição implacável dos órgãos arrecadadores.

No modo de tratar os pequenos empreendedores, o Brasil está em descompasso com o mundo. Bem feito para o próprio Brasil.

 

          *Dirceu Martins Pio é  jornalista, ex-diretor da Agência Estado e da Gazeta Mercantil e sócio da Furla Ativa Consultoria

 

 

 

Um distrito em colapso – Artigo publicado no jornal Correio Popular – 08/09/2011

 

*Marilena Furlaneto

 

Mais uma vez a população de Barão Geraldo se viu refém de atividades programadas para acontecer no distrito, cujos organizadores simplesmente ignoram as palavras respeito e  planejamento. Sofrendo nos últimos anos uma transformação brutal em suas características originais – com a proliferação de condomínios, comércio, pensões e repúblicas de estudantes, empresas e universidades, em sua grande maioria edificados sem a contrapartida de infraestrutura suficiente para suportá-los – o distrito vem colapsando em termos de serviços e sustentabilidade, palavra esta que deveria estar sendo reverenciada sobretudo em uma comunidade tão eclética e esclarecida como a que ali habita.

Na última sexta-feira a população local - e mais os milhares de pessoas que ali estudam, trabalham ou buscam atendimento médico-hospitalar  – foi surpreendida com um tráfego  intenso de veículos, muito acima da capacidade de suas ruas e avenidas. O enorme congestionamento começava ainda na Rodovia D. Pedro e no Tapetão, atrasando em várias horas os afazeres  do dia, por conta dos 900 ônibus e vans que foram colocados a caminho da Universidade de Portas Abertas -UPA - da Unicamp. Enormes filas de ônibus se formaram na principal avenida de acesso ao campus universitário, que ali mesmo estacionaram, pois não havia condições de adentrar a área destinada aos estacionamentos.

Junto com o crescente número de estudantes que ingressam na Unicamp anualmente, aos  livros e esperança de progredir em uma carreira profissional, se juntam seus carros. Salta aos olhos a degradação das residências do bairro Cidade Universitária, antigamente pródigas em jardins e cuidados, atualmente abarrotadas de carros nas garagens, onde gramados e plantas dão lugar a cimento e garagens que abrigam quatro, cinco, sete ou até dez carros cada uma! E ainda se pergunta porque temos tantos alagamentos quando chove muito!

Falta conscientização por parte das próprias universidades aos seus alunos da necessidade de diminuir o uso do transporte individual, caro e poluente, e de incentivar  meios de locomoção mais sustentáveis, como as bicicletas - ou até mesmo o “carpool” tão utilizado em países mais desenvolvidos, que nada mais é que a antiga carona, para diminuir os congestionamentos  nas grandes cidades.

Mas no Brasil dá-se  o contrário. Anda-se na contramão do resto do mundo. Aqui se incentiva os guetos, os condomínios, onde se paga caro pela falsa sensação de liberdade e segurança. Incentiva-se a degradação de bairros estritamente residenciais – como o Cambuí e a Cidade Universitária – em nome da sanha da especulação imobiliária. Incentiva-se o transporte individual em detrimento de investimentos públicos em transporte coletivo de qualidade. Incentivou-se o fim dos trens, que transportavam cargas e passageiros com maior segurança, em favor das rodovias e dos carros e caminhões que tanto matam nas estradas brasileiras. A indústria automobilística, decadente em países desenvolvidos, nada de braçadas no Brasil e em países em desenvolvimento. Por quê será?

O final de semana em Barão Geraldo, com engarrafamentos e congestionamentos que lembraram a capital paulista, é apenas um prenúncio do  que irá acontecer constantemente, em muito pouco tempo, caso não se adotem medidas urgentes para compensar o inevitável impacto de vários grandes empreendimentos programados para o distrito, além dos inúmeros condomínios. Já há áreas do bairro em que antigas residências foram transformadas em alojamentos de peão de obras.

Antes que seja tarde demais, não apenas Barão Geraldo, mas toda a cidade de Campinas carece de políticas urgentes, sustentáveis,   de expansão e desenvolvimento. Políticas que privilegiem o homem e não as posses. Que privilegiem calçadas e não estacionamentos. Políticas que privilegiem ônibus, trens e metrôs e não os veículos de transporte individual. Políticas que privilegiem e respeitem, em primeiro lugar, quem nasceu e vive desde sempre no bairro ou na cidade,  que tem aqui suas raízes e a família, e não os que chegam na última hora, forasteiros  interessados apenas no lucro fácil e rápido.

Faltou à Unicamp, neste episódio, um pouco mais de respeito ao seu entorno e aos contribuintes que a mantém em última análise com os seus impostos. Salvem Barão enquanto é tempo!

 

             *Marilena Furlaneto é jornalista, moradora de Barão Geraldo e diretora da Furla Comunicação.

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